2 de Março de 2009

Postal para o Apagador

No fim da rua do Alecrim, parece tão convencionalzinha a "Vitrine" gigante de Joana Vasconcelos ao pé dos gratuitos grafítis do prédio abandonado, ao lado.

Escreve Proust: "A beleza das imagens situa-se por detrás das coisas, a das ideias na frente. De sorte que a primeira cessa de nos maravilhar quando atingimos estas, mas só compreendemos a segunda quando as ultrapassamos."

Agora chato é o resto. Sejamos modernos de novo, contra a tristeza formatada de tantos desses pós-, neos, retros e o diabo a sete.

Os pesos-pluma de Rui Chafes são eternas frases de osso, belezas matemáticas. Mas arrisco a blasfémia: pintar uma ou outra de cores vivas, erradas, grossas e infantis, não poderia abrir-lhes as vogais?

E quando é que Tomás Cunha Ferreira faz um mural? E objectos-de-ocupar-espaço, coisas em relação às quais não se possa dizer "pintura"?

É preciso tirar as artes plásticas do gueto do dinheiro, warholizar já não a coisa em si mas o caminho até ela.

Na canção do Santo Popular, Samuel Úria diz "pobre" ou "pop"?

Talvez a pintura também pudesse ser myspaçada. Por exemplo, reciclar a ideia de "objectos encontrados" para a era do "faça você mesmo". Achar outros, novos, vários "por exemplos".

Como destraduzir para hoje as procissões-actuações de Albuquerque Mendes?

Brincar aos movimentos, inventar um que juntasse três ou mais pintores de Lisboa, podia chamar-se os Coloristas. Sair da pintura. Reentrar na pintura, forçar a inocência própria, começar do zero mais honesto e mais radical. Tudo mais político, de um novo político, porra.

Atacar a cidade. Fazer uma revista de periodicidade eventual, fazer cartazes inúteis, pintar paredes importantes, mudar a vida das pessoas, oferecer obras-primas grátis, recomeçar dos nossos 17 anos, mudar o mundo antes de morrer, dar nome a uma cor.

9 comentários:

Samuel Úria disse...

Digo "pop". E, homessa, onde foste tu ouvir tamanha velharia?

a disse...

posso 'rapinar' este texto para o meu blog?
(com as devidas referências é claro)

JLP disse...

não é velharia, samuel, é glória! e obrigado: "pop" é melhor, mas a dúvida também é boa. abraço

JLP disse...

cara a, claro, roube à vontade.

il macchinista disse...

ele olhou em volta observando que os outros sentiam a mesma coisa e, não percebendo a coisa toda, mas com a certeza dos seus 20 anos, gritou: eimen!

JLP disse...

boa certeza, signor macchinista! e essa carruagem, quando é que se põe a atravessar paredes?

intruso disse...

O último parágrafo é absolutamente político,
e por isso 'urgente'...


[excelente post(al) este...
digno de ser 'roubado']

Silvares disse...

Mudar o mundo é pouco.

maria disse...

descobri o apagador, quero ir a tempo do postal:
cores com o vosso nome, talvez desde os 17, com a pintura e os livros, mais música!
quando é que tcf faz um mural?
jlp escreveu um.

maria